segunda-feira, 18 de novembro de 2013

Das Decisões

A vida é feita de decisões.

Daquelas que tomamos embriagados às 3 da madrugada até aquelas que tomamos quando ainda éramos crianças e não sabíamos nada da vida.

A minha vida inteira eu sonhei em fazer intercâmbio. Desde que entrei na faculdade, juntei sempre que deu um dinheiro na poupança, para que quando eu me formasse eu pudesse ficar um ano fora estudando alemão, na Alemanha (sim, esse era meu sonho até então).

Surgiu a oportunidade do Ciência sem Fronteiras e eu fui para Holanda. Como recebi auxílio financeiro por lá, o dinheiro que guardei acabou por não ser necessário. Decidi, então, guardá-lo para minha volta definitiva, quando me formasse. Porém, se tem uma coisa que a volta me ensinou é que não vou conseguir chegar a lugar algum sem motivação.

Não adianta depositar sua motivação no outro, seja em um amor ou em seus amigos. Tem que vir de você. Ao perceber que nada no Rio me motiva a continuar a faculdade, trabalhar ou fazer qualquer outra coisa (nem lembro a última vez que saí de casa para balada), decidi novamente.

Decidi usar esse dinheiro que guardei e passar 3 semanas na Holanda. Natal, réveillon e uma semana de descanso. De recarregar as baterias. De me encontrar novamente, de relembrar qual o motivo dessa batalha diária que eu estou vivendo. De entender o porquê de doer tanto. Quando voltei da Holanda, me senti em queda livre. Em algum momento, o baque, a realidade, veio dura, veio forte. E eu caí, assim, sem proteção, completamente frágil. 

Já passei por situações piores e consegui encontrar forças de algum jeito. Mas, dessa vez, parece que desaprendi a voar. Desaprendi a encontrar a motivação para atingir meu objetivo.

Essa viagem tem um sentido. 

Tem uma meta:


Reencontrar as forças que faltam para voltar a voar. 

domingo, 20 de outubro de 2013

Da Dor

Sim, ainda estou vivo e não esqueci desse blog.

A verdade é que desde o meu retorno para o Brasil, na última semana de agosto, eu não tenho lidado muito bem com o tempo. Na verdade, não tenho lidado muito bem com nada.

A sensação que eu tenho é de ter sido arrancado do útero da minha mãe e jogado em um lugar onde eu não tenho ninguém. Óbvio que ainda é uma sensação inflamada pelo fato de ter se passado tão pouco tempo (serão 2 meses em poucos dias), mas é uma sensação legítima e uma das maiores dificuldades que eu tenho é explicar isso para as pessoas: não, não é por qualidade de vida.

Pelo fato de que eu tenho me sentido péssimo, não tenho vontade de sair ou encontrar meus amigos. Aliás, não tenho vontade de fazer nada além de dormir (lembram do épico "dormindo a gente não sofre"? Então). Isso tem feito eu ser uma péssima companhia, o que só contribui ainda mais para o fato de eu não querer encontrar ninguém.

Eu me sinto mal pelos meus amigos que não me vêem há mais de um ano. Que querem me encontrar, que falam comigo só para descobrirem que eu não estou disponível. Para ninguém. Nem para mim mesmo. Por isso, após 1 mês do meu retorno, publiquei o seguinte texto no meu perfil do Facebook, explicando qual era o real problema com esse retorno (desculpem, mas está em inglês).


A month has been passed since I came back from the Netherlands. Life has not been easy. A lot of people think that the main reason for my sadness and demotivation is the drop in quality of life. That what hurts is having to take an overcrowded bus at 6 am to be at university at 9, standing all the way long, most of the times with no air conditioning.

That the main issue is having to look around whenever I'm in a bus stop to check if there is anyone suspicious so I can use my cellphone. Or doing a traject of 20 min in 2 hours due to traffic jams. This sucks, a lot. But eventually I'll overcome this. There is no big deal besides the daily stress.

What hurts is realising how different I am from people here. How we take so many different things into account when speaking, acting and thinking. And how I feel constrained for it, out of place. It is a complete mismatch between me and my countrymen.

What hurts is listening to jokes that are not funny at all to me. Is reading the newspaper and not be able to relate to anything or anyone. To have nothing here that really holds me, that makes me want to go further.

Is knowing that him is not here. That they are not here.

What really hurts is having found where I belong, but not being able to be there. This is what really hurts.

I should keep trying. I should keep fighting. I should keep...trucking. That's what I hear. 'Give it some time', 'wait, 'it will get better'. When? How? I don't see any light in the horizon, everything for me have been just a grey sky with constant rain. My tears never run dry.

I'm just too tired to keep waiting for a time that never comes. For a moment when all this will become bearable.

I was never that strong.


É o pior é que eu me sinto completamente sozinho nesse sentido. Todos os amigos e colegas que também voltaram do intercâmbio e estão em uma situação parecida, sofrem da conhecida "depressão pós-intercâmbio". Eles, sim, estão sofrendo terrivelmente (com razão, é claro) da imensa queda na qualidade de vida. Mas não há um que não se encontre em casa. Que não pense em viver no Brasil a longo prazo - por mais que queiram uma outra experiência mais longa, porém temporária no exterior.

A solução que eu encontrei para lidar com isso foi bloquear completamente meus sentimentos, em relação a tudo. Eventualmente, eu choro, mas não é o choro libertador, daquele que você fica sem respirar, mas, que quando termina, te deixa leve. São lágrimas que caem, apenas. Por breves períodos de tempo.

A dor não é apenas a da readaptação, mas também da própria dúvida do retorno: não há garantias, independentemente da minha força de vontade e dedicação, de que a volta seja possível. O que me falta, agora, é algo concreto para me agarrar e me dar forças para continuar.

E eu estou lutando desesperadamente para encontrar esse algo.

quarta-feira, 12 de junho de 2013

De Eerste Keer

Esses últimos meses de Holanda têm me feito aprender tanto, em tão pouco tempo que, às vezes, sinto falta de ar. É tanta coisa para dar conta e o tempo em contagem regressiva não me ajudam a lembrar que também já passei por situações muito piores no Brasil e, guess what, sobrevivi.

Mas, mais impressionante que isso é o número de "primeiras vezes" (eerste keer, em holandês) que eu tive em 2013. Minha primeira viagem sozinho (Berlim, melhor viagem da minha vida), meu primeiro affair de viagem, a primeira entrevista de estágio, o primeiro cara que mexeu comigo de verdade, a primeira multa e até o primeiro pedido de casamento! Enfim, foram tantas, que eu poderia fazer um post sob cada uma delas.

Porém, a primeira vez do dia de hoje é realmente...intrigante pra mim:

Será a primeira vez que não passo o dia dos namorados sozinho.

E, por sozinho, quero dizer acompanhado, mas não de qualquer um. De alguém que ainda não sei se posso chamar de namorado, mas está comigo todo fim de semana, que se importa comigo todo dia, que me convidou para conhecer a família e que vai comigo para Roma por um fim de semana.

Preciso dizer que é uma sensação estranha de, logo neste momento, viver uma situação dessas. Porém, é de uma estranheza tão boa, que me pergunto do que eu estava me protegendo esse tempo todo. De ser feliz? De viver a vida do jeito que ela tem que ser vivida: segundo por segundo, minuto por minuto, hora por hora e dia por dia?



Ah, quer saber? Pouco importa como nos apresentamos aos amigos. 

Somos namorados.

Pelo menos, pra mim :).

segunda-feira, 3 de junho de 2013

Drunk Pleasures


Após 1 garrafa e meia de vinho e 4 horas em uma balada com cerveja a 1 euro...


- Apertamos todas as campainhas no caminho de volta pra casa, o que significa boa parte de Amsterdam West;

- Mijei num canal de Amsterdam, patrimônio cultural da UNESCO e NÃO fui pego;


- (TOP): Fui pedido em casamento! hahaha

Óbvio que não passava de uma brincadeira de dois bêbados andando pelas ruas desertas de Amsterdam, mas quem diria que com 22 anos eu seria pedido em casamento.



Um dedo a menos no "Eu nunca" agora :P

domingo, 26 de maio de 2013

O Salto

Foram uns dos três dias mais maravilhosos que eu passei do lado de alguém. Aliás, foi o período mais longo que eu, de fato, passei do lado de alguém. Tivemos 100% de tempo de momentos legais. E, acreditem, foi a primeira vez que eu, que ainda engatinho em cozinhar pra mim, cozinhei pra alguém.


Fui embora e depois disso, ficou a saudade. Porém, devido às diversas circunstâncias, incluindo viagens, um outro peguete, e certeza nenhuma do futuro (eventualmente ainda me sinto no direito de exigir certeza de um tempo que ainda não aconteceu), nos encontramos novamente no aniversário de um amiga minha, 1 mês e 1 semana depois.

E foi tão feliz vê-lo de novo. Tão bom que passamos o fim de semana inteiro juntos. E, no próximo, que seria meu aniversário, ele me ofereceu a casa dele pra comemorá-lo. E foi outro fim de semana juntos. E depois outro. E depois outro.

Aí, percebi, como criança que se dá conta da sua ingenuidade, que tinha saltado. Saltado? Sim, saltado. Não pensei em nada. Não pensei na minha volta daqui a alguns meses. Não pensei no quanto seria difíicil.

Segurei sua mão e me joguei. Fui. Caí. Vivi o hoje. Estou vivendo o hoje.


E nunca fui tão feliz.

sexta-feira, 24 de maio de 2013

A vista


Depois do maravilhoso primeiro encontro que tivemos, nada mais natural que nos encontrarmos mais vezes, certo?

Não. Nos falávamos eventualmente, mas só fomos nos ver efetivamente quase 1 mês depois. Eu tinha um congresso pra ir em Amsterdam e precisava de um lugar pra ficar. Eu tinha um amigo lá e sabia que poderia ficar na casa dele. Porém, Max - agora ele merece um nome - tinha me oferecido a casa dele pra ficar durante os 3 dias de congresso e eu acabei topando. Por que não?

Foi nesse momento que tudo mudou. Até então, eu o via apenas como pegação, alguém pra curtir meus últimos meses de Holanda, um fuck buddy, na melhor das hipóteses. Ele tinha viajado pra Paris no fim de semana, então chegaria super tarde na segunda (primeiro dia de congresso) e, para piorar a situação, o celular dele não estava funcionando bem. Mas só descobri isso depois de chegar da festa open bar do congresso com meu amigo. Já eram 0:30.

O que qualquer outra pessoa faria na nossa situação? Deixaria pro outro dia. Porém, o efeito do álcool, que deixa não só a língua e a boca, mas também os dedos que digitam mensagens mais frouxos, enviaram a seguinte mensagem: 

G: Eu realmente quero te ver hoje. 
M: Eu também, quer que eu te busque? Posso te carregar na bicicleta, o único problema é que meu celular não está funcionando e eu não faço ideia de como chegar na casa do seu amigo.
G: Ah, então tudo bem. Amanhã eu te encontro, vai ficar muito difícil hoje.
M: Se você realmente quiser, eu vou.
G: Então vem.



45 minutos depois (tempo aproximado do GoogleMaps) lá estava ele. Às 2:13 da manhã. Depois disso, foi mais 1 hora de pedalada de volta (ele tinha que me carregar na bicicleta ainda). Um detalhe: os dois tinham que acordar 7:30 da manhã. Quando chegamos, ainda conversamos um pouco e fomos dormir. Nem um beijo, nem nada. Apenas a certeza de que ele tinha subido alguns degraus na minha escala pessoal.

Degraus? Não. Talvez tenham sido andares.

terça-feira, 21 de maio de 2013

O Caminho


Não tem sido fácil.

Com alguns dias a mais que três meses para voltar, a única certeza é o sofrimento. Mas isso fica para próxima, porque não importa o quão ruim uma situação seja, o que importa é como você age diante dela.

E eu escolhi viver o hoje.

Ironicamente, apesar de ter "conhecido" muitas nacionalidades aqui na Holanda, só me envolvi com holandês. Todos os peguetes com potencial eram holandeses. Destino ou não, foi assim que foi sendo até janeiro. Eu não tinha me envolvido a sério com ninguém até esse momento e como meu tempo de Europa estava acabando, achei justo abraçar a vida da pegação. Pra valer.

Aí veio o primeiro holandês que mexeu comigo de verdade. Era, sem sombras de dúvidas, o Mr. Perfect. Tinha futuro, era o meu tipo físico, nossa conversa fluía, idade compatível, enfim, adjetivos suficientes para passarmos o dia inteiro conversando por whatsapp. Mas tinha um problema: como todos os casos que eu me envolvi a sério até hoje, ele tinha acabado de terminar um namoro.

E não é que eu estivesse procurando um "namorado". Estava procurando alguém. Alguém que eu não precisasse pedir pra beijar, alguém que eu pudesse só dormir agarradinho, só assistir um filme, que eu pudesse contar das felicidades e tristezas da minha vida. Não deu duas semanas, a mensagem fatídica, que eu já tinha ouvido duas vezes anteriores: "Estou me envolvendo, não quero, não posso. Desculpe, você é ótimo, mas não estou preparado para nada agora".

E isso me arrasou, me deixou mal. Fiz o que qualquer idiota faz nessa situação: se isola. Mas já tinha um date marcado há tempos, e eu fui. E lá estava ele, sem expectativas como eu. Porém, ele estava na mesma situação dos anteriores: não fazia muito tempo, tinha terminado um relacionamento de 5,5 anos. Eu só queria "diversão", então, pouco importava. Mas o destino reserva pra gente cada situação...que jamais poderíamos imaginar.

O primeiro encontro foi muito melhor que esperado: as 3 horas iniciais que era pra durar, se transformaram em 7.


E esse foi o primeiro passo rumo ao abismo...

domingo, 24 de março de 2013

O Tempo Passa

Eu gosto de retrospectivas. É impressionante o quanto a gente pode aprender se olhar pra trás e analisar o que aconteceu, por que aconteceu e como aconteceu.

Hoje, oficialmente, faz 7 meses que eu saí do Brasil. Amanhã, fará 7 meses que eu coloquei meus pés pela primeira vez em solo holandês. É difícil aceitar que, pela primeira vez, eu tenho mais meses aqui do que meses por vir. É como se começasse a perder o encanto, porque sei que é finito, por mais que o natural seja o contrário acontecer: exatamente por perceber que é finito, aproveita-se mais.

O saldo de 7 meses é, naturalmente, muito positivo. Posso dizer que não só acertei da minha escolha de país, mas de curso, de vida. Eu nunca estive tão certo e, ao mesmo tempo, tão despretensioso. Os Países Baixos (nome correto do país, ao invés de Holanda, que é apenas uma região, mas que é muito mais prático de usar e, por isso, continuarei usando :P) hoje é uma verdadeira casa para mim.

Toda vez que viajo (e vejam que já viajei bastante: Paris, Londres, Berlim, Lisboa, Viena...), o momento do retorno é mágico: é aquele sentimento de finalmente estar em casa, no seu aconchego. De poder usar o seu dinheiro, na sua moeda de novo (quando é o caso), de ser o seu cartão de transporte, de reconhecer o idioma (pois é, adivinha quem está dando passos cada vez mais largos em holandês?) e ter a terra como sua. De saber perfeitamente em qual esquina virar, mesmo quando você esqueceu de entrar naquele beco 5 minutos atrás.

A Holanda também me trouxe muitos, muitos amigos. Mas não qualquer tipo de amigos, amigos de verdade. Daqueles que você pode contar para beber uma cerveja contigo mas também para contar dos problemas e - por que não - das felicidades da sua vida. Amigos que eu sei que estarão lá, no matter what. E sei, não porque estou deslumbrado com a simpatia dos bons momentos, mas porque já precisei e encontrei, em terras batavas, meus portos seguros.

O tempo passa. E, por mais que a gente não goste, é de fundamental importância que isso aconteça. O tempo passou e eu pude perceber como é singular esse momento que eu estou vivendo agora. E não é só o tempo que passa. A vida passa. A vida vive.

Se passaram 7 meses dessa foto e eu posso dizer que nunca estive tão feliz. Nunca estive tão feliz de ser quem eu sou, estar onde estou e viver do jeito que eu vivo.


Dank je, Nederland.
Obrigado, Holanda.

quarta-feira, 28 de novembro de 2012

Equívocos

A vida é movida a equívocos. Alguns trágicos, alguns felizes. Todos equívocos.

Aquele melhor amigo que você um dia odiou. Aquele que você não tem mais contato, mas que já foi seu melhor amigo. A paixão que te consumiu e hoje te enoja. A questão que você respondeu com toda a certeza do mundo e errou. A questão que você chutou, sem ter a mais vaga ideia do que estava escrevendo e levou o ponto inteiro.

Acho bobagem acreditar no acaso. Os equívocos acontecem por uma razão, não é?

O exemplo mais recente é a minha própria estadia na Holanda. No mesmo período de inscrição para o processo do Ciência sem Fronteiras (o qual eu estava com uma preguiça imensa de tentar), eu tinha feito duas entrevistas para uma multinacional francesa e uma alemã. Na entrevista para a multinacional francesa, eu fui perguntado se eu tinha vontade de fazer um intercâmbio, passar o tempo fora. Nesse momento, me perdi.

Olhei para cima - denotação clara de imaginação na linguagem corporal - e disse sim. Fomos para outras perguntas e explicações, mas ficou nítido nos meus olhos toda a história que tinha passado na minha mente, tudo que eu imaginei, tudo o que eu queria viver. Um simples, rápido e modesto sim foi o suficiente para que eles entendessem. No final da entrevista, a sentença: Corra atrás desse sonho, lute para conquistá-lo. Quem sabe, ele só está esperando você abrir os seus olhos para ele.

A única clareza naquele momento foi de não ser aprovado para o estágio. Recebi a resposta negativa da indústria francesa poucos dias depois e da alemã, 1 semana depois. Fiquei arrasado. Irônico e sarcástico, como de minha natureza, pensei: É um sinal. É um sinal de que eu tenho que tentar esse intercâmbio, vai que isso é só uma forma de me dizer isso? ri. E fiz a inscrição que, ironicamente, estava atrelada ao meu fracasso em conseguir um dos estágios.

Chasing Pavements, eu disse. Por que eu continuava lutando por algo que eu sabia, sentia e previa que nunca chegaria? Que eu nunca conseguiria alcançar? Mas eu fui em frente, disposto a dar murro na ponta da faca mais afiada que enfrentei nessa vida. Disposto a dar o outro lado da cara a tapa.

Finalizar inscrição? 

Inscrição finalizada com sucesso.

No dia seguinte da finalização da minha inscrição, durante outra entrevista, menos importante, recebi uma ligação: a multinacional alemã tinha aberto outra vaga, e eu fui selecionado para essa vaga. Sorri, feliz, surpreso e sem saber o que esperar mais dessa vida. Nada tão bom poderia acontecer comigo durante um bom tempo.

Equívoco.

Equívoco que eu demorei alguns meses para entender e perceber: eles não acontecem por acaso.

segunda-feira, 26 de novembro de 2012

3 meses

Ontem fez exatamente três meses que eu peguei o primeiro avião da minha vida. Lembro perfeitamente da sensação de montanha russa ao decolar, do tédio depois da primeira hora de voo rumo ao desconhecido. Lembro, ainda, de como achei a comida do voo bem apimentada, porém, gostosa. Lembro da minha vida em um novo idioma começar logo ali, tendo que pedir water pela primeira vez, ao invés de água; orange juice, ao invés de suco de laranja.

Lembro da aterrissagem e das lágrimas descendo assim que dei o primeiro passo no Schiphol, o aeroporto internacional dos Países Baixos. Lembro da primeira foto no I Amsterdam e como aquilo representava a realização de tudo que eu tinha sonhado durante tanto tempo.

Lembro também da primeira vez que fui expulso de uma boate, no primeiro dia aqui. Da primeira frustração por não ser europeu, lembro da primeira vez em que não soube falar alguma coisa e inglês e tive que assumir isso para os meus colegas, que riram e disseram: That happens to everybody, all the time. Lembro das primeiras palavras de incentivo que dei para pessoas que eu mal conhecia e das primeiras palavras de incentivo que recebi.

Lembro do primeiro abraço, do primeiro flerte e do primeiro beijo. Da primeira vez que dormi fora. Da primeira vez que me perdi, me encontrei e me perdi de novo. Do primeiro tombo de bicicleta e da primeira ida ao médico, depois ao hospital e depois ao médico de novo. Da primeira vez que acordei ao lado de um desconhecido que se tornou um grande amigo.

Da primeira palavra em holandês. Da primeira ida ao supermercado e da primeira sensação de O que diabos eu estou fazendo aqui?

Provavelmente, ainda estou na lua de mel com a Holanda. Provavelmente, ainda vou decepcionar e surpreender muito.

Lembro ainda de, como olhando para trás, pensando em tudo que eu vivi no Brasil, eu era feliz. Apesar de tudo, eu era feliz. Mas, sem erro, posso dizer que, hoje, sou mais feliz aqui.

Foi aqui que me encontrei. E é daqui que não quero mais sair.

terça-feira, 20 de novembro de 2012

Parijs #2

O primeiro dia em Paris foi, como deveria ser, incrível. Eu cheguei às 5:42 em Paris, de busão, após quase 7 horas de viagem da Holanda. Teria sido tudo lindo caso não tivesse uma turminha de brasileiros extremamente conveniente cantando até às 3 da manhã, impedindo todo mundo de dormir. Depois de demorar horas para encontrar o metrô, entender onde eu estava e para onde eu iria (o metrô de Paris funciona maravilhosamente bem, mas não é nada noob friendly).


Cheguei na casa do Fer às 7:15, colocamos o papo em dia, e saí de lá pra vida meio-dia. E entrei nesse mundão que é Paris. Cidade linda demais.


O primeiro choque, para mim, reles falante de duas línguas, foi que os parisienses não gostam/não sabem/não querem falar inglês. Teve gente que SE RECUSOU a falar inglês comigo. Óbvio que existe toda uma questão cultural (vale lembrar que, das três cidades mundiais, Paris é a única que não é anglófona), mas foi meio chato para mim. Naturalmente, como toda pessoa bem relacionada, estava com amigos que falavam francês :).

No primeiro dia, o roteiro foi simples: Louvre e Notre Dame. E wow! Eu literalmente me perdi no Louvre umas 342342 vezes. Mas quem disse que reclamei? Cada seção era mais linda que a outra. Claro que vi a Gioconda (Monalisa) e a Vênus, mas o Louvre tem tão mais a mostrar. Sinceramente? É um programa pra semana inteira! 


A catedral é belíssima também!


Me despedi de Paris em grande estilo: Torre Eiffel (que descobri que sempre falei errado), Arco do Triunfo e Champs-Élysées. Faltou ainda o Palácio de Versailles e Moulin Rouge.


Essa foi minha visita ultrarrápida à cidade da luz. Paris é belíssima mesmo nos seus defeitos (por exemplo, a cerveja que custa €5 euros na boate. E eu reclamando de Amsterdam que era €2,80). Eu volto pra ver o resto da cidade e sentir um pouquinho mais da vibração francesa.

Je ne regrette rien...

terça-feira, 16 de outubro de 2012

Parijs #1

Hoje farei minha segunda viagem internacional (a primeira foi vindo para cá, haha) - se bem que aqui na UE é apenas considerado um vôo doméstico - para Paris, em holandês, Parijs (pronuncia-se algo entre Paráis e Paréis).

A primeira etapa para visitar a cidade da luz foi concluída: passagem em mãos, abrigo (obrigado Fêr!!) e malas prontas.

Il ne manque que parler français!

(post deveria ter ido online na Sexta passada...)

terça-feira, 9 de outubro de 2012

Amor de Plástico

Vocês não têm noção do que é viver em um país onde você se apaixona a cada esquina, do professor ao caixa de supermercado.

Vou dizer: não é fácil.

sábado, 6 de outubro de 2012

Be Open-Minded


Naturalmente, coisas ruins acontecem em todo lugar. E tem gente escrota em todo o lugar também.

Eu estive em uma maré ruim, digamos. Sofri um acidente sério de bike (Holanda é o país das bicicletas e haverá um post sobre isso em um futuro muito próximo) que, infelizmente, foi minha culpa e o holandês que se chocou contra mim, ao me ver no chão, todo arrebentado, só ficava repetindo que não tinha sido a culpa dele. Mas eu continuei no chão até conseguir me levantar e ir, sozinho, carregando a bike para casa.

1 semana depois eu sofri outro acidente (entendem a maré ruim?) dessa vez não por minha culpa, mas ninguém se machucou. A diferença foi que o holandês dessa vez, ficou mais preocupado comigo que com a bicicleta dele, que não ficou das melhores.

Independente disso, existem pessoas estúpidas em qualquer lugar. Porém, eu, bobo que sou, acreditava que quando você topa fazer um intercâmbio, você topava fazê-lo de cabeça aberta. Você vai para um país completamente diferente do seu, rumo ao desconhecido. Você sabe que pode encontrar coisas que não gosta, ou descobrir coisas que nunca imaginou existirem. Entretanto, não importa como, eu acredito que, quando você faz intercâmbio, topa dialogar com isso, com o diferente.

Aparentemente, como eu descobri, nem todos pensam assim.

Fui a um congresso importante em Lunteren (vibe Águas de Lindóia, ou seja,  para que os participantes, de fato, compareçam ao invés de ficar de turismo). O professor colocou os roommates de forma randômica, mas deixou claro que se alguém não se sentisse confortável, podia trocar. Até o dia do congresso, ninguém se manifestou.

No primeiro dia, perto do concurso de PhD (que parecia mais um stand-up, dado o formato MUITO FELIZ que eles usaram para competição). Eu ouvi uma história que me deixou muito puto: um colega de curso, ao descobrir que seu colega de quarto era gay - por conta do álcool da descontração da conversa - pediu imediatamente para o coordenador trocá-lo de quarto.

Ele é muçulmano, egípcio e a postura dele é, obviamente, entendível. Mas é aceitável? Claro que diante de um contexto cultural enraizado durante séculos, é difícil aceitar coisas que você foi ensinado desde criança que eram erradas e inaceitáveis, mas...Por que a Holanda, então? Por que escolher um dos países politicamente mais liberais do planeta? Por que se colocar em uma situação que você não está preparado para tentar entender, ver por outro ângulo?

O mais irônico, sabe qual é? A Holanda tem um preconceito muito forte contra muçulmanos, especialmente os marroquinos. Imagina se fosse o contrário. Se o holandês tivesse feito a cena por ele ser muçulmano. Como seria a situação?

Fica a reflexão.

quinta-feira, 27 de setembro de 2012

Meu xodó

Para tudo que meu bebê lindo chegou ontem!



Eu estou que nem uma criança aprendendo a mexer (touch é absurdamente difícil!!!) e baixar apps que todo mundo sempre falou (inclusive esse que vocês estão pensando), enfim. Estou MUITO feliz. E sabem quanto custou minha felicidade? €130,95.

This is Europe!


domingo, 23 de setembro de 2012

Going Dutch #1

O impacto cultural na Holanda é muito...impactante.

E ele vem rápido.

Como eu disse antes, eu nunca tinha viajado de avião e, não tão obviamente assim, nunca tinha ido no aeroporto. Eu achei o Aeroporto Internacional Tom Jobim (Galeão-RJ) enorme e razoavelmente mais bonito do que eu imaginava. Então, eu cheguei no Schiphol. Meu primeiro choque: o Galeão é uma rodoviária, praticamente.

Minha hostess foi me buscar de carro no aeroporto, saímos rapidinho de Schiphol (que, na verdade, é considerada outra cidade e não Amsterdam) e pegamos a autoestrada. Nesse tempo, claro, já deu para perceber o quanto o trânsito é diferente: bicicletas e carros não dividem exatamente o mesmo espaço, mas se cruzam o tempo inteiro (aquilo pareceu uma loucura para mim). É necessário muito mais atenção do que no Brasil, apesar de que os motoristas holandeses me pareceram mais competentes.

Ao chegar em casa, outro choque: aqui, é bem incomum você ter apenas um banheiro, geralmente, você tem um lavabo (vaso sanitário com pia...ou não) e outro banheiro com o box e a pia, para tomar banho e deixar a máquina de lavar, geralmente. Então, visualize a cena escatológica de fazer cocô em um lavabo, sair, abrir a porta em direção a um outro banheiro que pode ficar até em andares diferentes (!) para lavar a mão. Ou, pior, lavar a mão na cozinha. É, não é muito legal.

Além disso, na Holanda, não se almoça. I mean it. Eles só fazem uma refeição quente por dia e essa refeição é, geralmente, a janta. O almoço é feito de sanduíches com todos os tipos de pastas, queijos, presuntos, carnes e patês acompanhados de eventuais saladas e com a mais diversa variedade de sucos possíveis e imagináveis (da vibe abacaxi com coco e manga com limão e morango).

Típico almoço holandês.

Esses, obviamente, são os impactos mais práticos.

O verdadeiro "Go Dutch" ainda estava por vir.

quinta-feira, 20 de setembro de 2012

Brave New World

Quando eu saí do avião da KLM, passei por aquele "tubo" (me senti criança novamente, só que com malas e barba mal-feita) e pisei, de verdade, no Schiphol, eu fiquei parado. Perdi completamente a noção do tempo.

Eu olhava para o aerporto, mas não enxergava nada. Eu sentia um misto de felicidade, medo, conquista, desejo, raiva...Eu quis tanto viver aquilo, aquele sonho...pisar na Europa. Eu fiquei mudo. E chorei. Pela primeira vez, em toda a trajetória desse intercâmbio, eu chorei. Chorei como um bebê, soluçando e andando em direção à imigração. Era impressionante como eu não conseguia falar nada. Lembro bem de um texto do Fernando sobre o apagão linguístico que ele teve ao chegar no aeroporto de Frankfurt e posso dizer que foi exatamente isso que aconteceu.

"Eu: dsfsfsafsdafsdsfa - tentativa frustrada de falar inglês -
Guard: Do you speak English?
Eu: ?"

Quando me recompus e consegui chegar na imigração com todos os documentos e a conversa com o holandês simpático foi:

"Dutch: O que você veio fazer aqui?
Eu: Estudar.
Dutch: Onde e por quanto tempo?
Eu: Universiteit Utrecht (arranhando meu holandês) e por um ano.
Dutch: Boa pronunciação! Você vai adorar Utrecht, é uma cidade muito legal. Aproveite sua estadia aqui!"

*carimbo*

E foi isso. Eu passei pela imigração, estava legal, na Europa. Saí, fiquei louco procurando a minha bagagem com a tag e passei pela alfandega ("nada a declarar, seus gostosos").

Cheguei na Europa. E eu tinha toda certeza e incerteza do mundo comigo naquele momento.


Oh, brave new world,
That has such people in't. !

domingo, 16 de setembro de 2012

The Climb #3

Eu nunca tinha viajado de avião.

Eu tenho um medo de altura razoável, mas que foi superado graças a 3 anos de estudo na Fiocruz, o que me fazia ter que atravessar aquela "passarela" (em péssimo estado e que balançava como um pula-pula) todos os dias.

A despedida no aeroporto foi aquela coisa: toda a família buscapé reunida, mamãe se desfazendo de tanto chorar e eu me sentindo culpado. Culpado? Por quê? Simples: eu não estava triste. Eu amo meu país, amo minha cidade e minha família, mas aquilo, para mim, naquele momento, não significava muito. Eu estava, finalmente, realizando um dos meus maiores sonhos: não apenas viajar na Europa, mas MORAR lá.

Em um país que eu sempre tive simpatia. Eu não estava meramente indo estudar, eu estava indo estudar na MELHOR universidade holandesa, top 50 do mundo, top 10 na Europa. Era o meu sonho de, finalmente, ter a oportunidade de estudar em uma instituição de ponta. Era o meu sonho de conhecer onde a cultura ocidental que hoje impera (?) começou, conhecer o berço dos artistas e pensadores que você ouviu falar a vida inteira.

Eu estava excitado. E assim que o avião acelerou rumo à Amsterdam e eu fui vendo meu Rio ficando cada vez menor, fui vendo os quarteirões e cidades tornando-se apenas pequenas luzes. Até que em um momento, não via mais nada. Apenas a noite do Oceano Atlântico que, ainda sim, era maravilhosa, com a Lua lá, enorme, olhando pra mim.

Mais lindo ainda foi ver as nuvens de cima e depois testemunhar o magnífico encontro das terras francesas com o mar. Observar os mosaicos que as fazendas fazem, o pasto e, finalmente, as terras molhadas. Os lagos, os diques, os canais.

Schiphol. Amsterdam.

Dames en heren, willen we melden dat onze aankomst in de luchthaven Schiphol zal plaatsvinden in 5 minuten. Maak uw riemen en danken u voor uw voorkeur voor KLM.

Ladies and Gentleman, we would like to announce that our arrival in the Schiphol airport will occur in 5 minutes. Fasten your belts and thank you for your preference for KLM.

terça-feira, 11 de setembro de 2012

The Climb #2


Uma parte razoável da história vocês já sabem.

Enquanto eu corria por fora para meu intercâmbio na Holanda, eu também investia em outras áreas, fazendo entrevistas para indústrias farmacêuticas multinacionais. Nesse meio tempo, fui selecionado para ser estagiário na área de Desenvolvimento de Produtos, em uma indústria alemã. Era a indústria que eu mais tinha sonhado em trabalhar desde que comecei a procurar estágio.

Enquanto as dificuldades da Holanda cresciam, com uma grande desorganização e falta de articulação entre o CNPq, a Nuffic (parceiro responsável por intermediar o contato entre as universidades holandesas e o CNPq) e as próprias universidades, eu me encontrava no meu trabalho. Apesar de, em pouco tempo, se tornar claro que não seria a área que eu gostaria de trabalhar por toda a vida, o que eu aprendia ali, naquele momento, me consumia e me preenchia de uma maneira inacreditável.

Além, claro, do meu apego às pessoas. Eu me apego muito fácil, então, se tornava cada vez mais difícil uma possível escolha entre continuar lá e ir pra Holanda. Mesmo com muitas dificuldades, as barreiras foram se tornando mais brandas e caíram, uma a uma, diante da minha persistência. Primeiro, o teste de proficiência em Inglês, língua na qual meu conhecimento foi todo oriundo de autodidatismo, depois o contato com as universidades diretamente, um turbilhão de problemas, CNPq e seu reconhecimento de firma, enfim.

Tudo e, absolutamente, tudo, passou. Após a resposta positiva, começou a luta para os preparativos da viagem: conversão para euros (veja que piada: o CNPq depositou os valores iniciais com a cotação comercial, mas nós só podemos comprar com cotação turismo. Resultado? Perda de ~€300-400), arrumar a bagagem, entre outros.

Ainda havia o detalhe de eu nunca ter andado de avião.

E minha primeira viagem, direto para Europa, seria de longas 11:15h...

sábado, 8 de setembro de 2012

The Climb #1

É irônico.

O nosso destino é muito irônico. Algumas vezes, para o que nós julgamos ser o melhor e, outras, para o que julgamos ser o pior. Há um pouco menos de um ano atrás, eu vivia a frustração de não poder participar de um processo seletivo da minha universidade para estudar em Portugal por um ano. O porquê? Uma das exigências era de poder se bancar, sem ajuda de custo para nada, durante esse período.

Obviamente, eu não podia. Tentei viabilizar algumas formas, mas todas fracassaram. E, assim, vi meu sonho, de estudar fora, de conhecer a Europa, se afastar ainda mais. Até 2012. Até o momento em que eu defini para mim que não podia ser assim. Eu sabia que existiam bolsas que eu poderia fazer uso. Devia ser, de alguma forma, possível para mim...também.

Uma amiga participou de um processo para Portugal, em outro programa e, dessa vez, com bolsa. Foi aprovada. Lembro perfeitamente do convite que ela me fez a participar também, me incentivando. Eu tive preguiça. Tive soberba ("Não quero ir para Portugal, falar português. Quero aprender uma nova língua, ir para um país que é melhor, de verdade", pensei).

Quando ela foi aprovada, quando ela me ligou contando, eu fui inundado por dois sentimentos. O primeiro, a alegria, a felicidade por realizar, de alguma maneira, meu sonho em outra pessoa, tão próxima. O segundo, porém, foi um sentimento menos nobre. De inveja, não de estar no lugar dela, mas de não ter tido o mesmo discernimento e ter agarrado a oportunidade. Como ela fez.

Por coincidência, uma ou duas semanas depois da resposta da minha amiga, enquanto eu estava lendo o site do G1 para que meu cérebro não derretesse, eu vi o anúncio do 3º edital do Ciência sem Fronteiras (Science without Borders). Comentei com a minha atual chefe e ela disse: "Tenta".

Essa foi a primeira pedalada rumo a um desconhecido que eu jamais acreditei ser possível...para mim.