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quarta-feira, 19 de janeiro de 2011

A Vitória de Ariadna

*pisadas rápidas no chão*

"Meu filho, o que é uma transex?"

Foi assim que eu fiquei sabendo da eliminação precoce da participante Ariadna, a primeira transexual da história do BBB. Fato que o público brasileiro, em geral, não sabe votar em reality show. Acho que a cultura das novelas do 'vilão' e do 'mocinho' atrapalha um pouco as sinapses na hora de votar, porque o critério pra qualquer reality deve ser muito simples: samambaias first. Aquela pessoa que não existe, que não contribui em nada pra casa, que não briga (sim, porque quem é fã de BBB e derivados gosta de ver a casa pegar fogo, quem não gosta?).

Certamente, Ariadna não se encaixa nesse perfil. A veia barraqueira estava lá, latente. Além, claro, da franqueza com a qual ela emitia suas opiniões. Nessa brincadeira, eu li vários artigos sobre o fato dela 'esconder' sua transsexualidade dos outros participantes.

Olha, acho que essa questão é muito mais simples do que parece. Ao contrário de diversos comentários que eu li, Ariadna é, por via das dúvidas, uma mulher. Não é um homem operado. Argumentos? 'Mas ela nunca poderá gerar um filho', qualquer mulher sujeita a uma histerectomia - retirada do útero, e dos ovários, eventualmente - também não pode. 

Entretanto, ninguém diz que uma mulher assim é um 'homem operado', até porque, as mulheres que retiram também os ovários caem no mesmo fato anatômico de Ariadna: não produzem nem os hormônios femininos, quem dirá filhos. A única diferença notável talvez seja a ausência (não posso nem confirmar isso porque não sei como é o processo de construção do canal vaginal de uma transsexual) de lubrificação vaginal, mas que duvido que a maior parte dos homens notaria.

Aliás, o ponto principal, quantos heteros notariam, se transassem com ela, que ela é um 'homem operado'? Fica a pergunta.


Além disso, acho que é uma hipocrisia absurda dizer que ela deveria contar. Porque, diga quem quiser que não, mas é óbvio que o tratamento masculino para com ela seria completamente diferenciado das outras mulheres. Também é importante parar pra pensar que, ao contrário de um travesti que não conta que é um travesti, uma transsexual não iria causar o 'espanto' de ter algo ali que não deveria estar ali. Não haveria constrangimento por parte de ninguém. A transsexualidade é uma característica dela e apenas dela e, desse modo, ela tem o DIREITO de não querer contar pra ninguém. Muitos disseram 'eu não trataria diferente', então pra que saber?

Saber se uma pessoa só come no McDonald's ou no Bob's faz diferença pra você? Pra mim, também não. É o mesmo com a transsexualidade.

Mas o principal: Ariadna levantou uma discussão NUNCA antes levantada pela Globo para o público brasileiro que não fica acordado até às 1h da manhã pra ver profissão repórter e ouvir "Tá pensando que travesti é bagoonça?". Quantas pessoas sabem diferença de um travesti para um transsexual? Meu irmão  estúpido até hoje se refere a ela como um 'traveco'. Além de uma concepção equivocada, é um termo um tanto quanto ofensivo.

Embora eliminada, tenho certeza que Ariadna foi a grande vencedora desse programa. Não ganhou os R$1,5 milhões, mas, certamente, ganhou o respeito e a admiração das pessoas que quiseram ver um pouco além da máscara que cada um de nós usamos todos os dias.